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O segredo da colheita inteira e o uso do engaço na Borgonha

  • Foto do escritor: Aline Mendonça
    Aline Mendonça
  • 15 de abr.
  • 5 min de leitura

Bem-vindos a uma imersão profunda no coração da Côte d’Or. Hoje, convido você a entrar comigo no universo da vinificação na Borgonha, onde cada detalhe é tratado como uma peça de alta costura. Se você já degustou um Gevrey-Chambertin ou um Morey-Saint-Denis e sentiu uma vibração diferente, uma verticalidade que parece equilibrar a fruta madura com um frescor herbáceo sutil, você provavelmente teve o prazer de provar o resultado de uma técnica ancestral que divide opiniões, mas define caráteres: o uso do engaço.


Na Borgonha, a busca pela perfeição não segue uma receita estática. Como sempre digo aos nossos clientes no Vinho-Turismo-Borgonha, o savoir-faire dos nossos vignerons é o que transforma o terroir em poesia líquida. Entender a vinificação na Borgonha é entender que a decisão de desengaçar ou não as uvas é tomada, muitas vezes, no calor do momento, sob o sol da colheita, em uma conversa rápida entre pai e filho no pátio da vinícola.


O que é o engaço e qual seu papel no terroir borgonhês


Para iniciarmos nossa jornada sensorial, precisamos definir o protagonista técnico desta conversa. O engaço é o pequeno caule, aquela estrutura verde ou lenhosa que sustenta as bagas de uva. Enquanto a uva concentra a frutose e a doçura, o engaço é rico em taninos e compostos estruturais.


Optar pela vendange entière (colheita inteira) significa colocar o cacho completo no tanque de fermentação, sem passar pela desengaçadeira. É uma escolha delicada. Diferente dos taninos encontrados na casca ou nas sementes da Pinot Noir — que amadurecem e se harmonizam gentilmente com o passar dos anos na garrafa — o tanino do engaço é implacável. Ou ele está maduro e saudável no momento da colheita, ou ele trará um amargor verde que o tempo jamais será capaz de curar.


A decisão da "alta costura" vinícola


Muitos produtores com quem converso em vilarejos como Vosne-Romanée ou Chambolle-Musigny comparam seu trabalho à haute couture. A decisão de usar o engaço não é feita meses antes; ela é decidida horas, ou até minutos, antes das uvas entrarem no tanque.


Imagine a cena: as uvas chegam em caixas retangulares precisas (para evitar que o peso esmague as bagas do fundo, preservando a integridade do fruto). O pai está no vinhedo, observando a saúde de cada climat, enquanto o filho gerencia a recepção na adega. Via rádio ou um olhar cúmplice, decidem: "Esta parcela de Morey-Saint-Denis está perfeita, o caule está lignificado e saudável. Vamos usar o engaço". É essa precisão que separa os vinhos excepcionais dos vinhos comuns.


Por que utilizar o engaço nos vinhos tintos da Borgonha?


Você pode se perguntar: por que adicionar uma estrutura potencialmente amarga a um vinho conhecido por sua delicadeza? A resposta reside no equilíbrio e no art de vivre que buscamos em cada taça.


1. Frescor em anos quentes

Vivemos um ciclo de safras solares na Borgonha. Anos como 2022, 2023 e o promissor 2025 trouxeram verões intensos. Quando o calor é excessivo, a uva concentra muito açúcar e perde acidez. Aqui, o engaço atua como um mestre do equilíbrio. Ele traz um "frescor vegetal" e uma nota herbácea nobre que compensa a opulência da fruta, devolvendo ao vinho aquela vivacidade que os apaixonados pela Borgonha tanto prezam.


2. Estrutura em anos frios

Curiosamente, a vinificação na Borgonha também utiliza o engaço no extremo oposto. Em anos mais desafiadores e frescos, como 2021 ou 2024, onde a concentração de açúcar é menor, o engaço entra para conferir corpo e "espinha dorsal" ao vinho. Ele preenche o paladar, garantindo que o vinho não pareça magro ou diluído.


3. A oxigenação natural

Durante a fermentação, os engaços criam pequenos canais de ar entre as uvas no tanque. Isso permite uma fermentação mais homogênea e uma extração de cor e taninos mais gentil, algo fundamental para a Pinot Noir, que é uma casta extremamente sensível ao toque humano.



A experiência sensorial em Jevrey-Chambertin e Morey-Saint-Denis


Recentemente, em uma visita a um produtor biodinâmico em Gevrey-Chambertin, fui surpreendida pela delicadeza de seus vinhos. Mesmo utilizando mais de 50% de engaço na safra de 2023, o vinho não era agressivo. Pelo contrário, era de um refinamento ímpar.


Esse produtor em questão utiliza conceitos de fitoterapia e até medicina chinesa no tratamento de suas vinhas. Para ele, se a planta está em saúde plena, o engaço estará "limpo" e vibrante. Degustar esse vinho é perceber que a técnica não serve para tornar o vinho mais tânico ou pesado, mas para criar uma sintonia perfeita entre a fruta exuberante e a elegância terrosa.


Na Borgonha, não procuramos vinhos que "gritam", mas vinhos que "sussurram" complexidade. O engaço, quando bem utilizado, é o maestro que rege essa sinfonia silenciosa.



Perguntas frequentes sobre a viagem e vinhos da Borgonha


Qual a melhor época para visitar a Borgonha?

A melhor época para visitar a região é entre maio e junho (primavera) ou em setembro e outubro (outono). O outono é particularmente mágico devido às cores douradas das vinhas e à efervescência da colheita, embora seja necessário agendar visitas com muita antecedência.


Como identificar se um vinho usou a técnica de colheita inteira?

No nariz, vinhos com engaço costumam apresentar notas de especiarias secas, chá preto ou um toque floral de rosas e gerânios. No paladar, eles possuem uma estrutura mais "vertical" e um frescor que limpa as papilas gustativas, diferente da sensação apenas frutada de vinhos 100% desengaçados.


É possível visitar vinícolas que utilizam essa técnica biodinâmica?

Sim, muitas das propriedades mais exclusivas da Côte de Nuits e Côte de Beaune seguem princípios biodinâmicos. No Vinho-Turismo-Borgonha, organizamos roteiros personalizados que incluem visitas a esses produtores que tratam a vinha como um organismo vivo, permitindo que você conheça de perto o processo da vendange entière.


Conclusão: a harmonia entre tradição e natureza


A vinificação na Borgonha nos ensina que a intervenção humana deve ser mínima, mas precisa. O uso do engaço é a prova viva de que o conhecimento passado de geração em geração — o nosso querido savoir-faire — é o que mantém a Borgonha no topo do mundo vinícola. Seja para trazer frescor em um ano de sol escaldante ou estrutura em um ano de chuvas, o engaço é o fio que costura a elegância deste terroir único.


Espero que essa explicação tenha despertado ainda mais sua curiosidade sobre os nossos tintos. Prepare suas taças e à bientôt!


Aline Mendonça

Formada em Degustação pelo Terroir, na Universidade de Dijon. Há 11 anos assessorando brasileiros na Borgonha. Especialista em vinhos da Borgonha e visitas na região.

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