Degustações na Borgonha: a arte de interpretar o terroir e as safras
- Aline Mendonça

- 27 de abr.
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de abr.
A Borgonha não é apenas uma região vinícola; é um mosaico de histórias escritas na terra ao longo de milênios. Para quem busca entender a alma dos vinhos franceses, as degustações na Borgonha representam o ápice de uma jornada sensorial. Aqui, o foco absoluto é a terra — o que chamamos carinhosamente de terroir.
Diferente de outras regiões do mundo onde o corte (blend) de uvas domina, na Borgonha a pureza impera: trabalhamos essencialmente com a Pinot Noir para os tintos e a Chardonnay para os brancos. Essa simplicidade varietal é, na verdade, a moldura perfeita para que a complexidade do solo e as nuances de cada ano brilhem sem interferências.
O segredo sob nossos pés: a geologia e o clima
Para compreender por que uma degustação aqui é tão distinta, precisamos olhar para o que acontece abaixo da superfície. A Borgonha é fruto de um acidente geológico que criou um subsolo extremamente acidentado e rico em calcário e argila. Nas nossas vinhas, a densidade de plantio é propositalmente alta; isso força as raízes da videira a mergulharem profundamente no solo em busca de nutrientes, resgatando características minerais únicas que serão transmitidas diretamente para a taça.
O clima semicontinental da região também desempenha um papel crucial. Com manhãs frias que dão lugar ao sol e tardes que voltam a resfriar, criamos o ambiente perfeito para que a Pinot Noir mantenha sua acidez vibrante e elegância. Já a Chardonnay encontra aqui sua "melhor versão" global, atingindo um equilíbrio entre corpo e frescor que é impossível de replicar em qualquer outro lugar, inclusive no vilarejo que leva seu nome.
Degustação vertical: uma viagem através do tempo
Uma das experiências mais exclusivas que ofereço aos meus clientes é a degustação vertical. Mas o que isso significa na prática? Em uma vertical, degustamos o mesmíssimo vinho, do mesmo produtor e da mesma parcela de terra (climat), porém de safras diferentes.
É o que eu costumo chamar de a "alta costura dos vinhos". Através dessa dinâmica, conseguimos perceber os mínimos detalhes e como cada ano imprimiu sua assinatura na uva. Recentemente, organizei para um grupo de clientes fiéis uma vertical de Vosne-Romanée Premier Cru "Les Gaudichots". Trata-se de um vinhedo vizinho ao icônico La Tâche. Provamos safras que foram de 2018 a 2024.
Essa progressão permite entender a evolução do vinho:
Vinhos jovens (como 2022 ou 2024): Mostram a força da fruta, a energia e o potencial que ainda será lapidado pelo tempo.
Vinhos em evolução (como 2018): Onde os taninos já estão mais harmonizados e integrados à fruta, revelando a complexidade que só o repouso em adega proporciona.

Degustação horizontal: a voz do terroir
Se a vertical foca no tempo, a degustação horizontal foca no espaço. Aqui, provamos vinhos da mesmíssima safra (por exemplo, todos de 2020), mas de diferentes parcelas de terra. É a maneira mais fascinante de notar como dois vinhedos separados por apenas alguns metros de distância podem produzir vinhos com personalidades completamente distintas.
Nesse formato, o trabalho do viticultor e a identidade do solo tornam-se os protagonistas. É uma aula prática sobre como a drenagem, a inclinação e a composição mineral de um pedacinho de terra influenciam o paladar. É onde você realmente entende por que a Borgonha é hierarquizada por endereços e não apenas por marcas.
A beleza das safras difíceis e a maestria do produtor
Muitos viajantes chegam à França com uma lista mental das "safras perfeitas" ditadas pela crítica internacional. No entanto, o meu convite como sua guia e especialista na região é: deixe-se levar e mantenha a mente aberta.
No Brasil, é natural buscar a "aposta certa" devido ao custo e à distância. Mas, estando aqui na Borgonha, você tem o privilégio de provar o inesperado. Um grande exemplo foi um almoço recente onde abrimos um Échezeaux do Domaine de la Romanée-Conti da safra 2008. Embora a mídia não a classifique como uma safra histórica como a de 2005 ou 2015, o vinho estava simplesmente sensacional.
Um bom produtor revela sua grandiosidade justamente nos anos difíceis (como 2008 ou 2021). Como costumo dizer:
"Fazer vinho bom em ano perfeito é teoricamente fácil. O verdadeiro desafio é sublimar a uva em um ano de geadas ou pouco sol.

Experiências personalizadas e exclusivas
O enoturismo de luxo na Borgonha vai muito além de visitar balcões de degustação. Minha proposta é criar roteiros privativos e sob medida (sur mesure). Para quem já visitou a região diversas vezes, podemos sair do óbvio das vinícolas tradicionais e organizar degustações temáticas em locais históricos, focando em produtores cultuados ou em apelações específicas que despertam sua curiosidade.
Seja você um iniciante querendo entender as bases da classificação francesa ou um colecionador em busca de garrafas raras da Côte de Nuits, a Borgonha oferece possibilidades infinitas de modulação. O importante é treinar o paladar, respeitar o tempo da taça e, acima de tudo, permitir-se sentir a emoção que apenas um grande vinho borgonhês pode proporcionar.
Perguntas frequentes sobre degustações na Borgonha (FAQ)
É necessário reservar as degustações com antecedência?
Sim, obrigatoriamente. Na Borgonha, as melhores propriedades são familiares e de pequena produção. As visitas são quase sempre privativas e exigem agendamento prévio, especialmente para acessar os produtores de maior prestígio.
Qual a diferença entre um Premier Cru e um Grand Cru?
A classificação na Borgonha é baseada na qualidade do terreno. Os Grand Crus representam o topo da pirâmide (apenas cerca de 1% a 2% da produção), oriundos dos melhores solos. Os Premier Crus vêm logo abaixo, em parcelas de altíssima qualidade que expressam características muito específicas do vilarejo onde estão localizadas.
Como funciona o transporte durante as degustações?
Para aproveitar as degustações com segurança e conforto, o ideal é contratar um serviço de motorista privativo ou um roteiro guiado. As estradas da Route des Grands Crus são belíssimas, mas a legislação francesa de trânsito é rigorosa quanto ao consumo de álcool.
À très bientôt!
Aline Mendonça
Formada em Degustação pelo Terroir, na Universidade de Dijon. Há 11 anos assessorando brasileiros na Borgonha. Especialista em vinhos da Borgonha e visitas na região.











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